MMC Magazine: Homem, macho… é o mesmo que machista?

                                                                                                    Ilustração de Christopher Nielsen / The Jacky Winter Group



Por: Marcos W Melo Jr
Fotos: Reprodução da Internet

Precisamos deixar uma coisa bem clara desde o início: não é preciso ser machista para ser macho, homem ou masculino. Cada um desses termos refere-se a aspectos do que nos faz humanos, na ordem do biológico, sentimental e comportamental. Graças a uma longa história de conquistas político-sociais, hoje entendemos que nem todos nascem com o corpo em conformidade com o gênero, que expectativas sobre o comportamento e a forma como as pessoas se expressam são criadas e nem sempre serão correspondidas. E vale lembrar que nenhum desses aspectos têm relação com a afetividade do indivíduo. O que nos cabe é aceitar que cada indivíduo é um mundo em si, devendo ser respeitado em sua humanidade.


O machismo passa exatamente por aí. No desmerecimento de qualquer sentido que possa ser atribuído ao feminino. Desumanizando quem possa apresentar tais características, chegando ao ponto mesmo da violência. Cria de um irracional senso de superioridade, o machismo é irmã do racismo, da xenofobia, do colonialismo e da homofobia. Como observa Claude Levi-Strauss, antropólogo estruturalista, “os costumes são dados como normas externas, antes de engendrar sentimentos internos, e essas normas insensíveis determinam os sentimentos individuais, bem como as circunstâncias onde poderão e deverão se manifestar”. Trata-se de construção anterior à consciência do indivíduo. Desde o nascimento, somos criados para responder a determinados estímulos de determinadas formas; Se permaneceremos, combateremos ou reproduziremos estas estruturas nocivas, depende de cada um.

Mas o que é o macho?Em nossa cultura, o termo compreende uma série de atributos e valores que podem ser encarnados por alguém. Coragem, resistência, autocontrole, honra, iniciativa, força física e de vontade são algumas características morais associadas ao universo masculino. Quando mulheres demonstram esse tipo de valores comumente são chamadas pejorativamente de “mulher-macho”.

Apesar de ser uma tentativa de evitar que mais mulheres sejam reconhecidas por demonstrarem estas qualidades, é curioso como uma pessoa do sexo feminino pode ser tratada como tal. Vamos perceber que, da mesma forma, um homem pode ser considerado afeminado se não demonstrar tais valores constantemente.

Aqui temos um interessante ponto de virada: Um homem afeminado ou uma pessoa transexual não demonstram coragem, resistência e força de vontade apenas ao viver suas vidas sem negar suas existências? Em um país com tantos crimes relacionados à LGBT-fobia, com certeza são. Logo, estariam no mesmo patamar de macheza de qualquer homem.

Os corpos também são objetos de disputa de sentidos. Sinais de virilidade inscrevem-se nos corpos e são perigosamente alçados ao patamar de objetivo a ser alcançado. Intervenções cirúrgicas, uso de remédios para manter o pau semiereto na praia, anorexia e uso indiscriminado de anabolizantes são apenas a ponta do iceberg de uma relação corporal nociva. Obviamente a liberdade de dispor de seu próprio corpo é um direito a ser levado em conta. Ter um corpo atlético e saudável é perfeitamente desejável, mas alcançar objetivos que são mera propaganda é um hábito perigoso que não deve ser adotado ou imposto aos outros.

Assim, homens também podem ser machos em seus valores, viris em seus corpos sem precisar perpetuar um esquema de dominação e desumanização de outras pessoas. Valores morais e atributos físicos podem ser exaltados, tomados como um ideal. Mas é preciso ter em mente que nada deve ser imposto, agredindo a nossa existência ou de outros. O respeito que desejamos deve ser o mesmo que oferecemos.

Marcos W Melo Jr é jornalista, servidor público, Mestrando em Comunicação pela UERJ, pesquisador nas áreas de Narrativas, Corpos e Masculinidades